Lembro-me bem de ter ficado muito contente com a notícia!
Era então delegada do procurador da República em Setúbal e vivíamos nessa altura uma outra crise também muito profunda, com elevado desemprego, falências de pequenas, médias e grandes empresas, salários em atraso, que conduziam a situações dramáticas, com consequências muito adversas em especial para as crianças em todo o Distrito de Setúbal.
Lembro-me bem, sim. As mulheres entravam no meu gabinete com as crianças pela mão e falavam-me de fome e do desespero que sentiam por não terem meios para o “sustento”…..
Lembro-me das suas queixas, que denunciavam as mais horríveis violências contra elas próprias e os seus filhos.
Lembro-me de ter pensado que tinha sido uma excelente ideia criar uma organização inteiramente dedicada à Criança e que talvez assim houvesse uma maior atenção para que elas não sofressem tanto os efeitos da crise.
Tinha-se juntado um conjunto de profissionais ligados à criança, pediatras, professores, educadores, magistrados, poetas e escritores que tinham respondido ao apelo de Manuela Eanes para fundarem o Instituto da Criança.
Logo no ano seguinte houve um Seminário memorável na Gulbenkian em que pela primeira vez se falou de uma forma interdisciplinar sobre os maus tratos e os abusos sexuais infligidos às crianças.
Depois, foi criado o “SOS Criança”, uma linha telefónica de apoio às crianças, serviço anónimo e confidencial que até hoje já atendeu mais de 80 mil chamadas.
E em 1989, foi criado o Projeto das Crianças de Rua, dirigido às crianças e jovens expulsos de casa, ou em fuga, designadamente de instituições, e que vagueavam pela cidade, praticavam a mendicidade ou pequenos furtos e dormiam sobre as grelhas do metropolitano ou nas camionetas então estacionadas no Campo das Cebolas, expostos aos mais diversos perigos.
Foi também criado o Projeto da Mediação Escolar visando apoiar alunos dentro do recinto escolar, através dos Gabinetes de Apoio ao Aluno e à Família, para prevenir o insucesso e o abandono escolar e situações de conflito entre pares.
E ainda o Setor da Humanização dos Serviços de Atendimento à Criança, e o Setor da Atividade Lúdica e o Serviço Jurídico e a Rede Construir Juntos…
Trinta anos passaram e estamos mergulhados noutra crise.
Novos desafios nos convocam, continuamos a fazer os atendimentos telefónicos, a fazer giros noturnos para prevenir situações de perigo, e para encontrar crianças desaparecidas, a ajudar as famílias a encontrar-se, quando não veem saída para os problemas, a prestar apoio jurídico, a encaminhar as situações de risco e de perigo, estamos em nove Programas Integrados de Educação Formação, estamos em Hospitais e Centros de Saúde a divulgar a Carta da Criança Hospitalizada, estamos em Centros Lúdicos a promover o jogo e o brincar.
Hoje, o Instituto de Apoio à Criança é uma Instituição de referência no nosso País e a nível internacional.
O IAC tem uma equipa de excelentes profissionais. Parabéns a todos pelo trabalho de grande mérito que vêm desenvolvendo.
Pela sua tenacidade e pela sua liderança, merece um especial reconhecimento neste dia, a nossa Presidente, Manuela Ramalho Eanes, que nos entusiasma com a sua dedicação e com tudo o que nos ensina sobre o empenho na causa da Criança, e que nos motiva com o seu afeto, que entende deve sempre acompanhar a nossa atividade.
Vamos prosseguir, contribuindo para um mundo de mais direitos, mais respeito e mais dignidade para as crianças!
– Dulce Rocha